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por Gui Noronha

Há bastante tempo eu tinha ouvido falar de Jack Kerouac e de seu livro On the road. Na época, andava descobrindo o maravilhoso mundo do rock’n’roll, do movimento hippie e da contracultura estadunidense que, mais tarde, vim descobrir ter sido fortemente influenciada pelo livro de Kerouac.

On-The-Road-Jack-Kerouac_lpmEis que, recentemente, após ter lido o belíssimo Just Kids, de Patti Smith, onde ela relata diversas vezes sobre sua admiração por Kerouac, decidi tirar da prateleira meu exemplar de On the road, que estava guardado havia uns dois anos. Trata-se de uma edição da L&PM, com tradução, introdução e pósfacio de Eduardo Bueno (2004, 384p.), que adquiri em um site de troca de livros usados. Sabia que um dia leria este livro.

Comecei a leitura um pouco sem saber o que esperar da história. A princípio eu achei que narrava uma viagem pelos Estados Unidos, mas descobri que, na verdade, são várias viagens. Descobri também que o título On the road (na estarada) é mais do que justo para o livro, pois a história se desenrola na estrada durante praticamente todo o texto. O autor, através de seu alter ego, Sal Paradise, atravessa o país diversas vezes, de costa leste a oeste e vice-versa, terminando em uma viagem para o México, boa parte do tempo em companhia de seu amigo Dean Moriarty, numa jornada (e narrativa) intensa e acelerada.

Conta-se que o livro também foi escrito de forma acelerada, em apenas três semanas, regado a café, com uma máquina de escrever e um rolo de papel, usado para que o autor não precisasse trocar as folhas. Lançado pela primeira vez nos Estados Unidos em 1957, On the road foi recusado por diversas editoras, sofreu cortes de mais de 120 páginas e inúmeras correções, onde foram inseridos parágrafos e pontuações suprimidos pela escrita frenética de Kerouac. A história não possui clímax, desfecho ou reviravolta, mas prende o leitor por seu dinamismo e por sua capacidade de deixar pra trás o que já aconteceu e ir em busca de novidades. Há sempre novidades em On the road.

Considerado a bíblia da geração beat, o livro influenciou milhares de jovens a seguir em busca de liberdade, um dos lemas do movimento hippie e da geração rock’n’roll dos anos 1960. Juntos, estes compõem um movimento de contracultura único, onde sapatos deram lugares a sandálias, roupas conservadoras deram lugar a qualquer outra, mesmo rota e, principalmente, roteiros de vida conservadores e pré-definidos deram lugar à liberdade de escolha, de opinião e de atitude.

Dizem que a carreira de Bob Dylan teve início quando ele ‘fugiu’ de casa após ler este livro e, fato, muitas de suas músicas, principalmente dos anos 60, remetem a ele. Também inspirado no livro, o road movie Easy Rider, que lançou o ator Jack Nicholson, foi um marco na filmografia de contracultura dos anos 1960. Ray Manzarek, do The Doors, afirmou que a banda jamais teria existido se não fosse o livro de Kerouac. Dizem até que John Lennon se inspirou na palavra beat para criar o nome da sua banda: The Beatles.

Kerouac_by_Palumbo

Jack Kerouac, por Tom Palumbo, 1956

O curioso de toda essa influência é que, após o lançamento do livro e o estouro da fama, Jack Kerouac mostrou-se extremamente conservador e, após rejeitar o título de “profeta de uma geração”, terminou vivendo isolado, depressivo e alcoólatra, até morrer de cirrose aos 47 anos, em 1969.

Mas o legado de On the road permanece vivo nas gerações que vieram depois de Kerouac e no sonho de que, na estrada, é possível encontrar a si mesmo e a tão almejada liberdade.

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